03 junho 2021

Risco de transmissão da Covid é maior entre membros de uma família

 

Covid tem separado famílias, levando entes queridos para o leito da morte

Enquanto a covid-19 avança para mais de 100 mil casos confirmados no mundo, especialistas em saúde pública estão correndo para tentar entender como o vírus se espalha e encontrar a cura e formas de se evitar mais mortes. Somente no Brasil mais de 460 mil pessoas já morreram por causa da doença.

Embora não exista uma estatística oficial sobre o assunto, médicos consultados pela agência BBC News apontam que não há nenhum mistério nesse aumento de casos entre aqueles que compartilham o mesmo teto. Trata-se de local perfeito para a transmissão de vírus respiratórios, uma vez que quase todos em casa acabam relaxando os cuidados e tomando poucas medidas de precaução dentro da residência do que quando estão fora. Existe até a desconfiança de que bebês e crianças, que não são imunes à doença, podem ajudar na transmissão.

Pai e filho morrem de covid 

Os comerciantes Neto e Adnan, o Turcão, faleceram na mesma semana por covid


Na cidade de Sales, três pessoas de uma mesma família acabaram se contaminando e pai e filho faleceram na semana passada.  Adnan Mikhail Nahra,75 anos, e Miguel Nahra Neto, 46 anos, ambos conhecidos como “turco” em razão de serem proprietários da famosa rede de lojas Turcão, que possui unidades em Irapuã, Sales e Rio Preto, faleceram. A esposa de Adnan e mãe de Neto,   Anedir Aparecida Alessio, também contraiu a doença e se encontra internada em um hospital de São José do Rio Preto.

 O farmacêutico e comerciante Adriano Nahra, irmão de Neto e filho de Adnan, conta que seu irmão do nada começou a sentir-se mal no último dia 10. “Levamos ele para o hospital, os médicos disseram que o vírus está mais letal. Se agravou, dando comprometimentos nos pulmões e sistema respiratório com lesões graves. E meu pai ficou 11 dias no hospital”, contou Adriano, que também foi contaminado e se tornou notícia nacional em outubro por ter sido o primeiro caso de recontaminação na região de Rio Preto. “Fui contaminado duas vezes”.

“Nossa família está em luto”, afirma o bancário Fernando Alessio, morador em Sales, que perdeu o tio e um primo. “Outro primo meu, o Junior de 40 anos, recentemente se curou da covid, porém ficou com sequelas”, informou. “É muito triste esse momento que estamos passando. Essa covid mata, desestrutura famílias”.

 Família Tavares

A mãe Donância, as filhas Léia e Alessandra, com o filho Leandro, o genro, e o marido Romildo, durante recente passeio da família Tavares. Todos agora contraíram o vírus e precisaram ser hospitalizados  (foto Álbum de Família) 

 

O jornalista Leandro Tavares, colaborador deste jornal, também contraiu a doença e se encontra internado na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) do Hospital de Base. Ele é formado em Jornalismo pela Unorp. Trabalhou nas prefeituras de Sales, Adolfo e Itapevi, além da Folha do Povo e em jornais em Rio Preto. Cursa há três anos Medicina em Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia. É pessoa conhecidíssima na região.

Na semana passada, Leandro teve de vir às pressas para Adolfo para socorrer a mãe, Donância, que contraiu covid e não conseguiu, mesmo com a intercedência da direção da Folha do Povo junto aos hospitais rio-pretenses, encontrar vaga em nenhuma UTI (Unidade de Tratamento Intensivo) dos hospitais.

A mãe precisou ser internada no hospital da Unimed em Catanduva. Na semana passada o pai, Romildo Tavares, também precisou ser internado, também por covid. Recuperado já se encontra em casa. Mas Leandro e suas duas irmãs, Léia e Alessandra, segundo o pai, que conversou com dificuldades e praticamente chorando com a reportagem da Folha do Povo, também se encontram hospitalizados para tratamento da covid. “Essa doença é muito silenciosa e traiçoeira. Chega de uma vez e derruba a gente”, lamentou o pai Romildo, pedindo orações para a recuperação dos familiares.

Leandro Tavares e a mãe Donância, ambos se encontram hospitalizados
(foto: Álbum de Família)
 

Como se contamina

 O vírus que causa a covid-19 é transmitido, segundo os médicos, por meio de gotículas geradas quando uma pessoa infectada tosse, espirra ou exala. Essas gotículas são muito pesadas para permanecerem no ar e são rapidamente depositadas em pisos ou superfícies. Qualquer pessoa pode ser infectada ao inalar o vírus se estiver próxima de alguém que tenha covid-19 ou ao tocar em uma superfície contaminada e, em seguida, passar as mãos nos olhos, no nariz ou na boca.

 

Tragédia no Brasil

A tragédia do coronavírus levou o Brasil ao segundo lugar como o país com maior número de mortes por covid-19, atrás apenas dos Estados Unidos, onde mais de 544 mil pessoas já morreram pela doença. O tamanho da população de ambos países poderia explicar parcialmente a liderança em números absolutos. Entretanto, a posição do Brasil em termos relativos também é significativa. Até a semana passada o Brasil estava em 23º na taxa de total de mortes por um milhão de habitantes, segundo a plataforma Our World in Data.

 Para médicos e cientistas ouvidos pela BBC News, ignorar e subestimar a realidade foram os fatores que estão na raiz de todos os problemas que levaram o país a entrar em colapso por causa da covid-19.

Negacionistas atrapalham

Ethel Maciel, durante entrevista à televisão, fala que o negacionismo das autoridades comprometeu o trabalho preventivo dos médicos
 (Foto: Reprodução da TV)


 Essa negação da doença, desde o começo pelo governo federal, encontrou ressonância em alguns gestores públicos e em parte da própria população brasileira. “O negacionismo é o eixo central que permitiu a sucessão de erros e a total ausência de preparação para um momento como este”, analisa a doutora Ethel Maciel, doutora em epidemiologia e professora da Universidade Federal do Espírito Santo.

Para a presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), a médica Gulnar Azevedo e Silva, a falta de atuação do governo federal no começo da pandemia foi uma posição errada. “Um ano já era suficiente para se ter aprendido alguma coisa para a gestão da pandemia, mas a descoordenação foi deliberada; não uma preocupação do governo para resolver essa crise”. O presidente da República, segundo médicos, insiste em dar maus exemplos em relação à prevenção da doença. Anda constantemente sem máscara, ajuda a promover aglomerações, faz criticas às vacinas e disse, por mais de uma vez, que não iria toma-la.

Para presidente da ABRASCO, depois de um ano de pandemia governo não aprendeu e insiste nos mesmos erros cometidos no começo (foto: UFRJ)


O médico Márcio Sommenr Bitencourt, do Centro de Pesquisa Clínica e Epidemiológica do Hospital Universitário da Universidade de São Paulo (USP), chama a atenção para a falta de medidas de prevenção contra o vírus no Brasil. “O pouco que fizemos, em grande extensão, foi minado pelas lideranças federais, que nem sequer estimularam as medidas mais básicas de proteção”, disse à BBC.

 Troca de ministros

Em menos de um ano e meio o governo de Jair Bolsonaro teve quatro ministros de Saúde. Dois saíram por não concordar com o uso da cloroquina
(fotos: Repodução Facebook)


Desde que a pandemia começou, o Brasil teve quatro ministros da saúde diferentes: os médicos Luiz Henrique Mandetta (até 16 de abril de 2020) e Nelson Teich (de 17 de abril a 15 de maio de 2020); o general Eduardo Pazuello ( de 2 de junho de 2020 a 15 de março de 2021) e Marcelo Queiroga (atual ocupante do cargo).

“Que pais aguenta isso, quatro ministros da saúde em um ano durante uma pandemia?”, critica a médica Gulnar Azevedo e Silva, presidente da Abraco e professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). “Essa troca de ministros foi um atraso enorme, pois este é um momento em que todo mundo precisava estar trabalhando em plena capacidade. O ministro precisa conhecer todo mundo, os processos internos. Mas tivemos pessoas erradas no lugar errado. E não precisa ser médico para ser um bom gestor. Mas tem que conhecer o funcionamento do SUS (Sistema Único de Saúde), valorizar as experiências anteriores, ter competência”, afirmou, mencionando a falta de competência do militar Pazuello a frente do Ministério da Saúde.

Mandetta e Teich foram demitidos após divergências com Jair Bolsonaro. Um dos principais motivos da discórdia era a defesa intransigente do presidente para adoção do uso de drogas como hidroxicloroquina e azitromicina como “tratamento precoce” contra a covid-19.

Por um lado, Bolsonaro via e continua vendo esses remédios como uma possível solução para a pandemia, apesar das evidências cientificadas mostrarem justamente ao contrário. Por outro lado, os dois ministros com formação médica, resistiram ao chamado “kid-covid” defendido pelo presidente e acabaram deixando o cargo após intenso processo de desgaste.

O general Pazuello se manteve nove meses na liderança e foi efetivado sob o argumento de que tinha experiência em logística. Mas, na prática, aconteceu ao contrário com a falta de oxigênio em Manaus (AM) e a demora para a compra e distribuição das vacinas. Foi então substituído pelo médico Marcelo Queiroga, presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia.

 Na contramão da história

 

Presidente tosse e insiste em andar sem máscara. Ele saudou manifestantes que pediam intervenção militar no dia 19 de abril de 2020. (reprodução do site da BBC)


Na contramão da maioria dos dirigentes mundiais, Bolsonaro chegou a lançar dúvidas sobre muitos cuidados validados cientificamente e que contam com o respaldo de entidades como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos. Um dos alvos mais contumazes do discurso de Bolsonaro foi contra o uso de máscaras.

Numa live no dia 25 de fevereiro deste ano, ele disse que um estudo numa universidade alemã falou que as máscaras eram prejudiciais às crianças e que poderiam provocar irritabilidade, dor de cabeça, dificuldade de concentração, entre outras coisas. “Então começam a parecer aqui os efeitos colaterais das máscaras, tá ok?”. E ele faz questão de não usar máscaras em suas aparições públicas, quando provoca aglomerações com seus passeios a cavalo e de moto para atrair a atenção de seguidores.

 Críticas

“No primeiro semestre de 2020, até fazia sentido ter dúvidas e esperanças sobre o efeito benéfico de remédios como hidroxicloroquina, azitromicina, ivermectina e nitazoxanida contra a covid-19”, afirma o médico Carlos Maciel. “Mas com mais de um ano de pandemia, esse já é um assunto superado na maior parte do mundo. Porém no Brasil continua a render”. Gente que não entende nada de Medicina e nem de Ciência se transformam em especialistas anônimos pelas redes sociais. E ainda ousam em dar conselhos e receitas sem eficácia comprovada de cura.

Em março deste ano, Bolsonaro tornar a gravar live para defender o uso desses medicamentos. “No meu prédio, as informações que tenho é que mais de 200 pessoas pegaram, fizeram algum tipo de tratamento inicial e deu certo”, disse, incentivando as pessoas fazerem o tratamento que ele recomenda.

 “Esse é um tema cansativo. Não existe tratamento precoce contra a covid-19. Se existisse, todos os países do mundo estavam agora anunciando essa descoberta com a maior felicidade do mundo”, supõe Maciel.

 Vacinas retardadas

Em pleno surto da segunda onda da pandemia o ex-ministro Pazuello, passeia, dando mal exemplo, sem máscara em shopping de Manaus (reprodução Facebook)


Em agosto e setembro de 2020, a farmacêutica Pfizer entrou em contato com o governo federal para negociar a venda de 70 milhões de doses de sua vacina, que naquele momento estava caminhando para a fase final dos estudos clínicos. A empresa, porém, não recebeu nenhuma resposta.

No segundo semestre de 2020, Bolsonaro lançou dúvidas, por várias vezes, sobre a eficácia dos imunizantes e até “comemorou” a interrupção momentânea dos testes da Coronavac, da Sinovac e do Instituto Butantan, em novembro, após a morte de um voluntário.

“Morte, invalidez, anomalia. Esta é uma vacina que o Dória queria obrigar a todos os paulistanos a tomá-la”, disse Bolsonaro. Ele não só disse como também escreveu e publicou em suas redes sociais: “O presidente disse que a vacina jamais poderia ser comprada. Mais uma que Jair Bolsonaro ganha” .

 Para o médico da USP, a situação gravíssima da pandemia deixa o Brasil numa espécie de “cobertor curto”, em que não há recurso e tempo suficiente para lançar mão de tantas medidas que seriam essenciais. “Na nossa atual circunstância, ainda vamos ver muita gente se infectar, ser internada e morrer pela doença antes de começarmos a ver alguma melhora”

 

 

 

 

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