10 junho 2021

Pedro Castillo já discursa como presidente eleito do Peru

 

Com um chapéu branco típico de Cajamarca, Castillo percorreu as regiões do Peru, até a cavalo, para obter votos 


José Pedro Castillo Terrones, 51 anos, é o novo presidente eleito no Peru. Ele já se declarou vencedor das eleições nesta quinta-feira, antes mesmo da conclusão e anuncio oficial dos resultados. Desde domingo, os escrutinadores contam os mais de 25 milhões de votos nas cédulas de papel. Já são cinco dias de apuração dos votos.

No primeiro turno, com 18 concorrentes, nenhum dos candidatos recebeu mais de 20% de apoio. Castillo disputou o segundo turno com a candidata Keiko Fujimori, filha do ex-presidente Alberto Fujimori, vencendo-a por uma diferença de cerca de 70 mil votos.

Em mensagem aos eleitores na sede do seu partido, no centro de Lima, Castillo disse que "fará um governo que respeitará a democracia, a Constituição e criará estabilidade financeira e econômica para os peruanos".

Durante a campanha, Castillo afirmou que “se opõe a pagar qualquer dívida externa” aos credores internacionais. Também se manifestou contra a igualdade no casamento, a ideologia de gênero na educação e prometeu que seu governo não legalizará o aborto.

Professor da área rural, Castillo saiu do anonimato ao liderar um movimento grevista na área da educação que recebeu apoio popular. “O interessante no caso de Castillo é que ele não tem vínculos com a elite financeira, nem com a imprensa e nem com a elite partidária”, analisa Raul Nunes, professor do núcleo de Estudos de Teoria Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). “Ele disputou a eleição por partido que não era dele. Os votos ficaram bastante divididos. Os votos da capital foram em sua maioria para Keiko Fujimori, principalmente nas áreas onde vive a elite peruana, enquanto as áreas rurais deram ampla vantagem para Castillo”.

Diferenças de votos

  Eleitor registra voto impresso em urna, no Peru - Reprodução/ Twitter ONPE


Na capital Lima, por exemplo, Keiko obteve 64,5% dos votos contra 35,4 de Castillo. Já em Cusco, a situação foi bem diferente. Castillo apareceu com 82,9% dos votos e Keio obteve apenas 17,1 %. Em Arequipa, Castillo obteve 64,8%, enquanto Keiko ficou com 35,2% dos votos válidos. Em Trujillo, a vantagem foi de Keiko com 66,3% contra 33,7% de Castillo.
Keiko Fujimori retomou o movimento político deixado por seu pai, Alberto Fujimori, que governo país nos anos 90. Ela é investigada pelo Ministério Público por suspeição de ter recebido dinheiro ilegal de empreiteiras para campanhas políticas e chegou a ficar 16 meses em prisão preventiva.

Alberto Fujimori ganhou fama ao prender Abimael Gusman e desativar o grupo terrorista Sendero Luminoso. Em 1996 enfrentou o sequestro de várias autoridades durante uma festa na embaixada do Japão em Lima. Foram dias de tensão, com várias autoridades estrangeiras presas nas mãos de sequestradores. A ação terminou com a invasão subterrânea na embaixada, que culminou com a morte do sequestrador Nestor Cerpa.

Alberto Fujimori dissolveu o Congresso, fechou o Judiciário e impôs censura à imprensa. Pouco depois separou-se de sua esposa Suzana Higuchi em um barulhento divórcio. Ela o denunciou como “tirano” e alegou que seu governo era “corrupto”. Ele a destitui do cargo de primeira-dama, nomeando então a filha Keiko para o cargo, que em seguida elegeu-se, junto com o irmão Kenji, como deputada e disputou as eleições presidenciais de 2011, 2016 e agora em 2021. No segundo mandato de Fujimori mais de 3000 peruanos foram mortos em crimes considerados como políticos. Durante os últimos meses do ano de 2000 ele se viu encurralado por uma série de escândalos, fugiu e pediu asilo político no Japão. Foi condenado a 10 anos de prisão.

Pedro Castillo e Keiko Fujimori, durante debate na televisão peruana


 Quem é o novo presidente

Pedro Castillo nasceu em 19 de outubro de 1969 na cidade de Puña, em Tacabamba, província de Chota, no Estado de Cajamarca. Durante a juventude trabalhou como patrulheiro até se formar como professor e se tornar líder do sindicato. Em 2002 concorreu, sem sucesso, a prefeito de Anguia.

Até então era desconhecido do público. Alcançou certo destaque ao liderar a greve dos professores em 2017. Concorreu à presidência do Peru pelo partido Peru Livre, considerado como partido alinhado à esquerda.

Castillo defende a eleição de uma Assembleia Constituinte para substituir a constituição herdada de Alberto Fujimori. “Castillo que ao mesmo tempo tem pauta econômica radical de nacionalização de recursos estratégicos, reforma da previdência e universidade gratuita para todos, por outro lado, no âmbito dos costumes, tem um programa conservador, contra o aborto, contra a eutanásia e contra o homossexualismo, o que pode fazer com que ele tenha resistência dentro dos grupos de esquerda”, analisa o pesquisador Jefferson Nascimento, do Observatório Sul Americano da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).

 Repercussão no Brasil

Engenheiro Cristian Loyaza acredita que Castillo será menos ruim ao Peru do que se Keiko tivesse sido eleita

Cerca de 50 mil peruanos moram no Brasil. Um deles, o engenheiro Cristian Loyaza, que mora em Goiânia (GO), disse à Folha do Povo que não torcia para nenhum dos dois candidatos que foram para o segundo turno nestas eleições. “Tínhamos muitos outros candidatos melhores”, avalia, sem dizer quem seria o seu favorito no primeiro turno. Mas uma coisa ele assegura: “o Peru não merecia ter a Keiko Fujimori no poder”.

Segundo o engenheiro, Keiko e outras 40 pessoas respondem a processos que acumulam mais de 15 mil páginas de documentos. “São provas e acusações de que Keiko e o grupo dela receberam dinheiro de empreiteiras, como a Odebrech”, diz. “É muita coisa. São milhões e milhões de recursos desviados. Ela inclusive sofreu condenação de prisão preventiva, por 16 meses, e umas das normas impostas por essas penas era de que ela não poderia se aproximar desses comparsas, também acusados. E o que vimos em muitas fotos nessa campanha é que ela continua cercada por essa gente”.

 “Castillo pode não ser o candidato ideal para o Peru neste momento, pois parece que não tem preparo suficiente e nem experiência administrativa para administrar”, disse o engenheiro peruano, acentuando que existem suspeitas de que ele seria ligado a grupos terroristas ou comunistas. "Muitas dessas acusações são as famosas fake news e aquele velho discurso de comunismo é perigoso, é isso e aquilo".

 Cristian disse que não votou nestas eleições por dois motivos. Primeiro por causa da pandemia e segundo em razão da distância. O consulado mais próximo fica a cerca de 300 km de Goiânia. Outro peruano que também não compareceu às urnas para votar, pelos mesmos motivos, foi o engenheiro Lujan Sosa Viera, que reside em São José do Rio Preto. Mas se fossem votar, votariam por Castillo, nesse segundo turno.

Lujan também acha que Castillo não está preparado para ser presidente. “Mas levando-se em conta que a Keiko foi conveniente com as falcatruas existentes no governo do seu pai, Alberto Fujimori, e ela mesmo responde agora a processos na justiça por acusações de corrupção não teríamos porque votar nela”, analisa o engenheiro.

“Contra Castillo temos apenas suspeitas de que poderá ser também corrupto e fazer um mal governo”, disse Lujan, à Folha do Povo. “Mas pelo menos o povo peruano está dando chance a quem nunca foi nada para mostrar se tem ou não capacidade de governar. Se não tiver capacidade, ele será derrubado, como foram os últimos presidentes. Isso faz parte da democracia”.

 Castillo parecido com Bolsonaro

Cientista argentino Mário Riorda compara Castillo parecido ao Bolsonaro

O professor e cientista político argentino Mário Riorda destaca que as mazelas sociais da sociedade peruana se agravaram com a pandemia de covid-19. Dados revelam que o número de mortes no Peru ultrapassa a mais de 180 mil óbitos. É o maior índice de óbitos em proporcionalidade pelo número de habitantes do mundo.

 Riorda em entrevista para o programa Ponto a Ponto da TV Bandeirantes, comandado pela jornalista Mônica Bergamo, afirmou que Castillo é “ideologicamente híbrido”.

“Não é fácil localizar Castillo como um representante de esquerda”, afirmou Riorda. “Em termos de políticas sociais, é tão ou mais conservador que o próprio Bolsonaro. É uma pessoa antidireitos, no sentido de que se opõe ao casamento igualitário, aos direitos das comunidades LGBTI, se opõe, em geral à legalização da maconha. Então, creio que é um presidente ideologicamente hibrido. Certamente, em muitos aspectos, é de esquerda por seus apoios. Por outro lado, em sua agenda social, é muito parecido com Bolsonaro”.

Área central de Lima, a capital, onde Keiko obteve melhor desempenho nas urnas com 64% dos votos válidos da cidade

Em Arequipa, segunda maior cidade do Peru, Castillo levou vantagem e ficou com 64% dos votos válidos na cidade

Em Puno, cidade na beira do lago Titicaca, na divisa com a Bolívia, Castillo obteve 89% dos votos válidos da cidade

Em Trujillo foi uma das poucas cidades do interior onde Keiko esteve na frente

Em Cusco, tradicional cidade turística do Peru, onde se localiza Machu Pichu, Castillo obteve 82,9% dos votos válidos




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