09 fevereiro 2021

Índio: das lentes das câmeras para a vida empresarial

Índio exercendo sua função como repórter-fotográfico para o jornal A Notícia
(foto de Gallo, da Revista Competir)

 Os heróis da vida real são pessoas comuns que se destacam no meio em que vivemos. Essas pessoas despertam em nós a certeza de quem vai à labuta diária consegue chegar ao topo. São exemplos de vida que podem e devem ser passados adiante. Um desses verdadeiros heróis é Florindo Damasceno de Oliveira, hoje com 67 anos de idade bem vividos, com muita fé, dedicação, amor e muito trabalho.

 Nascido em um sitio de José Bonifácio, Índio, como é popularmente conhecido pelos amigos e colegas que tiveram a oportunidade de trabalhar com ele, é o sexto filho de um casal de lavradores. A espanhola Amparo Gonzalles e José Damasceno Oliveira, mineiro de São Sebastião do Paraiso, tiveram ao todo 10 filhos, seis homens e quatro mulheres. Viveram como meeiros de roças de café, produzindo rapadura, açúcar mascavo e verduras para vender na cidade.

Naqueles tempos a vida não era nada fácil para a família Damasceno. Eram tempos difíceis e Índio teve de abandonar os estudos, quando estava no quarto ano primário para trabalhar. Precisava colaborar com o pai no trabalho duro da roça, para ajudar o pai no sustento dos quatro irmãos menores.

De servente à câmeraman

Índio trabalhando como câmeraman na TV Rio Preto, Canal 8


 Quando tinha 17 anos, Índio foi trabalhar de servente de pedreiro com o irmão mais velho Florentino na construção do prédio da TV Rio Preto, nas margens da rodovia Washington Luís. Ajudou a assentar os primeiros tijolos no imponente prédio que viria a sediar uma das principais emissoras de televisão do interior paulista.

 Em 15 de setembro de 1971, a emissora, Canal 8 VHF, entrava no ar, de maneira bastante improvisada. E quis o destino que no dia da inauguração um dos rapazes contratados para ser um dos operadores de câmera faltasse. Vanderley Meneguini, primeiro diretor da emissora, afiliada na época da extinta TV Tupi, lançou mão do improviso, pegando “a laço” na platéia o jovem Índio para operar a câmera de número dois no dia da inauguração, que teve as bençãos do Monsenhor Leibenides de Castro, pároco da catedral de São José.

 “Nunca tinha visto e nem operado antes uma câmera de televisão”, lembra Índio. “Me ensinaram ali na hora alguns comandos. Tremia igual ‘vara verde’, mas deu certo. Recebi os parabéns do diretor e já fui contratado”. E ali foram longos 17 anos de trabalho nessa emissora com muitos programas de auditório, como o de Amaury Junior, Silveira Coelho, Sala dos Esportes e o histórico sertanejo Porteira do 8, que até hoje está no ar.

 “Ali nessa emissora eu aprendi de tudo, desde operar câmera, fazer edição e cortes dos filmes, dos vídeos para levar as imagens ao ar, fiz sonoplastia, iluminação, cenário e com o tempo era eu quem ensinava os outros”, conta Índio. A emissora foi inaugurada em 1971 por um grupo de empresários de Uberlândia, liderado por Edson Garcia. Três anos depois foi vendida para o empresário catanduvense Varlei Agudo Romão. Em 1978 passou a pertencer ao grupo de Paulo Machado de Carvalho, dono da TV Record. Recebeu novos equipamentos e expandiu sua rede, instalando retransmissores por quase todas cidades das regiões noroeste e oeste paulista. Em 1989 foi adquirida pelo bispo Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus.

Repórter-fotográfico

Índio atuando como repórter-fotográfico no antigo estádio do América


 Um ano antes da TV Rio Preto, que passou por alguns perrengues financeiros, ser adquirida por Edir Macedo, Índio recebeu convite de Amaury Júnior para trabalhar como repórter-fotográfico e laboratorista do recém criado jornal “Dia & Noite”. “Ele me ofereceu pagar quase três vezes mais do que eu ganhava de salário na televisão”, lembra, contando que não pensou duas vezes em pedir as contas na emissora.

Paralelo ao seu trabalho ao jornal também trabalhava como operador de som e sonoplasta em algumas emissoras de rádio. “Sempre gostei de aprender coisas novas e aquilo para mim é era maravilhoso”. Infelizmente, o “Dia & Noite” não deu muito certo, se enveredou em dívidas e teve de ser fechado. Foi então quando surgiu a oportunidade para ajudar na montagem da “Folha D´Oeste”, jornal na cidade de Jales, com equipamentos em off-set de ultima geração, para o qual, destaca, eram carreados recursos vindos do deputado Hebert Levy e do banqueiro Olavo Setubal.  “Contrataram os melhores profissionais da região e colocaram nós para morar numa casa, com piscina e churrasqueira, algo raro para a época. Para se ter ideia da potência desse jornal tinham lançado o Fiat 147, que custava uma nota, e compraram seis zerinhos, todos pintados com a logomarca do jornal”.

 Com as mudanças na política, os recursos para o jornal de Jales foram rareando-se. Índio recebeu convite de Ivaci Matias, com quem tinha trabalhado no Canal 8, para trabalhar na TV Morena de Campo Grande. Mas preferiu continuar pela região de São José do Rio Preto. Nessa altura tinha casado com a Claudenir e já tinha filha Juliana, hoje com 37 anos, e mãe do David, de 8 anos, o xodó do vovô Índio.

Salva-vidas

Casado com Claudenir, com quem teve a filha Juliana, Índio fez de tudo um pouco na vida: de servente de pedreiro, salva-vidas, repórter fotográfico, cinegrafista, laboratorista, sonoplasta, entre outras atividades  


Índio conta que em tempos difíceis recebeu ajuda do amigo Alberto Cecconi, jornalista e empresário no ramo da comunicação. “De imediato ele me arrumou um emprego no Sesi para trabalhar como salva-vidas”, lembra, acrescentando, bem-humorado, que mal sabia nadar direito. “Depois fui trabalhar numa clicheria e participei da reinauguração do jornal ‘A Notícia’, onde fui laboratorista e repórter-fotográfico”.

 Como laboratorista descobriu a fórmula química para produzir reveladores e fixador de filmes. “As nossas fotos só faltavam ‘falar’”, brinca. Com a técnica apreendida passou a ser cobiçado por outros jornais da cidade. Trabalhou também por alguns anos no “Diário da Região”, onde em meados dos anos 90 entrou na “lista de corte” da nova direção. “Contrataram um novo diretor que veio de fora, de Sorocaba, se não me engano, e numa sexta-feira 13 ele mandou embora, de uma vez, umas 15 pessoas. E meu nome estava nessa lista de demitidos”.

 Nesse período, já acima dos 45 anos de idade, Índio passou por inúmeras dificuldades financeiras. Viveu um verdadeiro calvário, percorrendo dezenas de redações de jornais e televisão de várias cidades em busca de uma vaga. Viajou para várias cidades em busca de emprego e de uma nova oportunidade. “A gente sabia que era bom naquilo que nos propusemos a fazer. Sabia fotografar, revelar e operar uma câmera como poucos profissionais. Mas ninguém mais abria as portas e nem nos dava oportunidade. Foi um período muito triste”.

 Produção de salgados

Foi produzindo e vendendo salgados que Índio conseguiu mudar de vida

 Índio morava nessa época numa casa, localizada na última rua do bairro Solo Sagrado, quase na beira de um córrego. A casa tinha sido ele mesmo que tinha erguido as paredes. A rua nem asfalto tinha. Quando chovia era barro e lama. No calor a poeira era insuportável. Mas foi nesse cenário, chegando em casa chorando por não conseguir trabalho para sustentar a família, que a mulher Claudenir sugeriu que ele se ajoelhasse e pedisse ajuda a Deus. “Foi o que eu fiz. Dobrei meus joelhos e pedi clemência a Deus”, conta.

 A esposa para ajudar no orçamento doméstico começou a fazer coxinhas de mandioca e outros de tipos e salgados para vender de porta em porta no bairro Eldorado. Era o único dinheiro para o sustento da família. Índio que já não tinha mais carro, vendido para ajudar a pagar as despesas da casa, pegou a velha motoneta que ainda lhe restava e saiu pelas feiras-livres para ajudar a vender os salgados produzidos pela esposa.

 As vendas foram, aos poucos, melhorando. De repente ele conseguiu fechar negócio para o abastecimento de uma cantina de escola. Em pouco tempo ele já fornecia salgados para cantinas de mais de 40 escolas. Teve que ampliar o negócio. Comprou fornos industriais, maquinários, carros e motos para entregas. Chegou a ter mais de 15 funcionários contratados na empresa. “Foi uma benção”, revela, acrescentando que a produção e venda dos salgados mudaram totalmente a sua vida e a da sua família.

 Mas não era nada fácil. Ele, a esposa e a filha Juliana colocaram literalmente as mãos na massa. Acordavam todos os dias às 4 horas da manhã para preparar as massas. Às 6 horas da manhã já saiam da fábrica dois ou três carros, carregados de salgados, e mais de 15 motoqueiros para levar os salgados para abastecer as cantinas das escolas, de inúmeras lojas de materiais de construção e de clubes recreativos.

 Fé e muita humildade

Focando no trabalho e numa fé inabalável em Deus que Índio conseguiu dar uma reviravolta em sua vida para viver melhor ter tudo o que tem hoje


 “Graças a Deus minha luz sempre brilhou por causa da minha humildade”, afirma, acrescentando que nunca discutiu ou maltratou ninguém. “Sempre respeitei a todos. Aprendi muito e ensinei o que pude a todos”.

 Estabelecido agora com três casas de aluguel, uma chácara com mais de 2 mil metros quadrados e aposentado, Índio diz que não tem do que reclamar da vida. “Estou muito feliz por ter vivido e enfrentado tudo que vivi”.

 Casamento

Frei Nélio Belotti foi quem celebrou o casamento de Florindo com Claudenir, na igreja de Santa Apolônia, nos distrito de Engenheiro Schimidt

 O único ponto triste para Índio foi a recente perda da esposa Claudenir. “Ela lutou o quanto pode para derrotar o câncer. Foi uma grande mulher ao lado de toda a minha vida. Nos deixou muitas saudades”. Índio guarda boas lembranças do casamento, celebrado na Igreja de Santa Apolônia pelo frei Nélio Joel Angeli Belotti, o conhecidíssimo Frei Francisco, que dirige dezenas de hospitais em cidades dos Estados de Goiás, Paraná, Ceará, Pará, Rio de Janeiro e São Paulo, além do Barco Hospital, a pedido do Papa Francisco, para atender comunidades ribeirinhas do rio Amazonas.

 “Até hoje temos amizade com o Frei Nélio, que é uma alma boníssima, e sempre mantemos contato”, revela Índio, orgulhoso em fazer parte do rol de amigos do padre missionário. Ele aconselha as pessoas a terem fé em Deus, trabalhar e nunca deixar de se dedicar, de corpo e alma, para alguma religião. “Seja qual for a religião. Temos que ter uma para seguir, trabalhar, porque nada cai do céu, e ter muita fé em Deus”.

 

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