12 janeiro 2021

Viajando do Brasil ao Peru a bordo de um Tipo fabricado em 1994

No caminho ao Peru o engenheiro faz uma parada com seu Tipo 94, a 4.163 quilômetros de distância de São Paulo

Se viajar ao Peru já é algo interessante, chegar lá de carro pode ser muito mais surpreendente. E mais incrível ainda é repetir esse trajeto. Foi exatamente isso que o engenheiro mecânico Ronald Cristian Loyaza, 39 anos, fez viajando duas vezes com o mesmo carro: um Tipo, da Fiat, fabricado em 1994. E com placas de São José do Rio Preto.

Ele percorreu cerca de 20 mil quilômetros por estradas sinuosas e desfrutando de paisagens maravilhosas que conciliam montanhas, geleiras, vulcões, deserto e a floresta amazônica. O Peru é um dos países mais ricos em biodiversidade de todo o planeta e um dos mais representativos patrimônios culturais da humanidade.

Cristian nasceu em Lima, capital peruana, e veio, no começo de 2011, tentar a sorte no Brasil depois de uma decepção amorosa em seu país. Aqui chegou e primeiro se estabeleceu em São Paulo, onde nasceu sua filha Camile, hoje com 4 anos de idade. Atualmente reside em Goiânia (GO).

Em 2013 ele comprou o Tipo 1.6 IE, depois de observar que um colega de trabalho tinha um carro idêntico e subia, sem muito esforço, as ladeiras íngremes na periferia de São Paulo. “Pensei se esse carro tem um motor robusto para subir nessas ruas não terá problemas para subir as serras nas montanhas do meu país”, revelou.

Adquirido o carro, começou a prepará-lo e planejar a viagem. Colocou pneus novos, faróis de milha e fez todas as revisões necessárias para a viagem iniciada no começo de dezembro de 2015. Sabia que não seria fácil o trajeto que teria pela frente. O carro tinha, naquela época, 21 anos de fabricação e já tinha saído de linha em 1997. “Teve gente que falou que eu era doido em fazer uma viagem dessa com um carro velho”, disse, em tom de gozação.

"Tipo 94 foi e voltou do Peru, por duas vezes, rodando 20 mil quilômetros numa boa", revela o engenheiro mecânico Cristian Loyaza


Com uma bandeira do Brasil colocada no vidro traseiro do veículo ele saiu de São Paulo rumo a São José do Rio Preto, onde pernoitou na casa de amigos. No dia seguinte seguia viagem para Goiânia (GO). De lá para Cuiabá e Cáceres (MT) e depois para Vilhena e Porto Velho (RO). Ele sempre viajava durante o dia. Mas nesse trecho, devido ao fuso horário, ele acabou se confundindo e adentrou na pista quando escureceu rapidamente. 

Gado na pista

Com seu Tipo 94 rodou tranquilamente por sete Estados brasileiros

Cristian conta que levou um baita susto na estrada quando avistou de longe, refletido pelos faróis do carro, umas luzes meio avermelhadas. Reduziu a velocidade do veículo e ao chegar mais perto viu que se tratavam de bois e vacas na pista. Eram animais grandes e aí o medo tomou conta. Não sabia se acelerava o veículo ou se descia do carro para afugentar aqueles animais da pista para abrir passagem. “Fiquei com medo que os animais, que eram grandes, avançassem sobre o carro e sobre mim. Mas devagarzinho eles foram abrindo espaço para eu passar”. 

Uma parada na divisa entre os Estados do Acre e Rondônia para o registro fotográfico


Pernoitou em Rio Branco, capital do Acre, e percorreu 330 quilômetros de estrada asfaltada, porém al conservada, pela rodovia Interoceânica, também chamada de Estrada do Pacifico, até a fronteira com o Peru. A parir da fronteira, foram mais 230 quilômetros até Puerto Maldonado e depois, mais 474 quilômetros até Cusco, patrimônio histórico da humanidade onde se localizam vestígios arqueológicos da época em que Machu Picchu foi capital do Império Inca. 

Firme nas Cordilheiras dos Andes

Subiu montanhas e chegou a 4.170 metros de altitude


“A paisagem ao longo do trajeto é fantástica e, somente de carro, você pode desfrutar de todas essas belezas”, diz o engenheiro. “A gente passou pelo Pico Abra Pirchuayani, a 4.725 metros de altitude, atravessamos a Cordilheira dos Andes e o nosso Tipo aguentou firme todo esse trajeto”.

Durante o trajeto, devido ao fechamento de estradas por causa de protestos, ele teve que fazer algumas mudanças inesperadas de rota. “Chegamos em La Paz na Bolívia e quando nos dirigíamos à Cochabamba encontramos a rodovia interditada e tivemos que voltar e procurar outras rotas’, lembra.

Viagem tranquila

Próximo as dividas do Peru e da Bolívia fez parada para registrar aquele momento

Em resumo a viagem foi considerada bastante tranquila pelo engenheiro. Na volta ao Brasil, Hernani, um de seus irmãos fez questão de ir dirigindo o Tipo até a fronteira com a Bolívia. Um ano depois, lá estava Cristian, com o mesmo Tipo, fabricado em 1994, fazendo novamente a viagem rumo ao Peru. Mas desta vez ele quis experimentar um novo trajeto. 

Seguiu viagem até Foz do Iguaçu (PR), por onde ingressou na Argentina, adentrou no Chile, passando novamente pelas Cordilheiras dos Andes, para ingressar no Peru pela cidade de Tacna.

Mas desta vez encontrou problemas na barreira fronteiriça. Os militares peruanos invocaram com a sua documentação. “Mesmo eu sendo peruano não queriam permitir meu ingresso de volta ao meu país por questões  burocráticas de documentos”, lembra, informando que passou quase 15 horas parado na fronteira esperando liberação para poder passar. “Mas depois deu tudo certo e acabei fazendo uma surpresa para minha mãe e meus irmãos que não esperavam me ver naquele Natal em casa”.

O Tipo só teve um pequeno problema mecânico, mas logo resolvido na Argentina


“Lei do Retorno”

Cristian com o seu irmão Hernani (a esquerda) que fez questão de acompanhá-lo até a divisa com a Bolívia, onde se despediu

Cristian afirma que acredita muito na “lei do retorno” e explica que quando se pratica o bem, o bem retorna depois para a gente. Ele conta que estava em Porto Velho quando um senhor, já de idade, se aproximou, com olhar aparentemente muito cansado para lhe vender sorvete. Percebeu que aquele senhor estava faminto e sem dinheiro para se alimentar. Não teve dúvidas e o convidou para almoçar no restaurante com ele. O senhor arregalou os olhos de felicidade e comeu aquele dia como se fosse um rei, lhe agradecendo eternamente pela farta alimentação. 

O bem que fez àquele senhor lhe retornou um ano depois em sua segunda viagem ao Peru, afirma Cristian. “Estava indo numa estrada bastante esburacada quando passei sobre um buraco e o carro quebrou. Não mudava nem de marcha. E fiquei ali na estrada com uma corda na mão acenando, implorando para que alguém parasse e ninguém parava. Passavam todos correndo, levantando poeira e me deixando todo sujo de areia”.

Depois horas, sem sucesso, pedindo socorro surgiu um pequeno e velho caminhão que parou. Já estava escurecendo e o dono do caminhão aceitou guincha-lo com uma corda até o posto de combustível mais próximo. Já era tarde da noite a aparentemente não tinha ninguém acordado ali. O local estava muito escuro e a única claridade vinha de uma luz num poste distante.

Cristian passou aquela noite fria, enrolado em cobertas dentro do carro. Ao amanhecer o dia se deparou com uma oficina mecânica diante de seus olhos. “Parece que foi um milagre de Deus”, afirma. “O mecânico muito atencioso consertou o carro e seguimos viagem em frente”.

Carona assusta

Pequena parada no deserto do Atacam, no Chile, para apreciar a natureza


Na Argentina, na saída de uma pequena saída, deu carona para um casal desconhecido. Um pouco mais a frente, num posto policial, o carro é parado pelos guardas. Todos descem e inicia-se uma rigorosa revista no veículo e nas bagagens dele e dos passageiros desconhecidos. Um dos policiais o chama numa sala reservada e indaga qual a relação do engenheiro com o casal. Ele diz que não os conhecia, que simplesmente estava dando carona. Mas o policial alertou que estava sendo revistado as mochilas do casal e que se encontrassem drogas ele também seria preso em fragrante por transportar entorpecentes. “Nessa hora fiquei rezando para todos os santos existentes no mundo”, lembra. “Mas graças a Deus não tinham nada. Mas aprendi a lição que os guardas me deram: não transportar desconhecidos”.


Linhas de Nazca e Atacama

Os misteriosos desenhos no meio do deserto na cidade peruana de Nazca


Cobrir todo o resto é precaução obrigatória para poder atravessar o deserto, pois o vento forte pode provocar cortes ou queimação indesejáveis na pele

Uma das melhores partes dessa sua segunda viagem foi o trecho em Nazca a Lima. “Esse trecho tem paisagens lindas, margeando o oceano Pacifico”. São pouco mais de 650 quilômetros, mas que equivalem a 1.500 aqui no Brasil. Isso porque a estrada tem muitas curvas fechadas que um carro não faz a mais de 40 km/h. “Todo esse trecho tem precipícios de um lado e pedras gigantescas do outro”, observa. “Sem falar na quantidade de animais cruzando a pista. As lhamas e alpacas que, no Peru, são criadas como gado, estão por todos os lados”.

As lhamas e alpacas são animais muito comuns no Peru, aparentemente dóceis e estão por todas as partes do país

Em Nazca estão as enigmáticas linhas esculpidas no deserto, com detalhes e complexidade variadas. Acreditam que tenham sido feitas há mais de 500 anos antes de Cristo. Hoje as linhas de Nazca se tornaram uma atração turística muito popular, que atrai gente do mundo inteiro para ver de perto esse mistério desenhado no deserto.

Parada no deserto do Atacama para apreciar a paisagem

Nessa viagem o engenheiro também transitou com o seu Tipo pelas rodovias que circundam o deserto de Atacama, localizado na região norte do Chile até a fronteira com o Peru. São cerca de 1.000 quilômetros de extensão. O Atacama é considerado o deserto mais lato do mundo. 

“Viajar para pelo deserto não é tão simples como viajar para a praia e requer certos cuidados, principalmente com a saúde”, informa Cristian. A região do Atacama é uma das mais árida do mundo e está em altitudes acima dos 2.400 metros, chegando até quase perto de 5 mil em alguns pontos. 

O deserto de Atacama proporciona vistas maravilhosas


As farmácias vendem remédios preventivos contra o Mal da Altitude, mas a folha de coca é o principal aliado para diminuir e mesmo eliminar os efeitos da altitude no corpo. “O sentimento de falta de ar é perceptível desde a chegada”, informa. “O chá de coca a gente encontra por lá em qualquer lanchonete, café ou restaurante, sendo comum os hotéis oferecerem também gratuitamente. Mas é preciso cuidado para não exagerar na dose, pois pode atrapalhar o sono”.

Outro momento triste para Cristian aconteceu no regresso da última viagem, já no Brasil, foi abordado nua blitz por policiais rodoviários.  Mesmo apresentando todos seus documentos em dia e relatando sua história, os policiais desconfiaram que ele pudesse estar transportando drogas. Abriram suas malas e jogaram todas suas roupas no chão. Tiraram o estepe e todas as rodas do carro. A revista foi minuciosa e nada foi encontrado. "Foi muito constrangedor passar por essa situação de desconfiança e fomos tratados como se fossemos bandidos".

Carro sofreu acidente

O momento mais triste para Cristian foi quando um depois de ter feito as duas viagens com seu Tipo ao Peru estava recém-chegado em Goiânia, cidade onde reside atualmente, quando estava parado num cruzamento aguardando o semáforo abrir e uma motocicleta surge em disparada e choca-se contra o seu carro. A batida foi tão intensa que deu perda total ao veículo, que, infelizmente, já não tinha mais seguro. “Tive que vender o carro para um ferro-velho como sucata”, lamenta.

Mas como nem tudo é perdido, Cristian encontrou no ano passado outro Tipo 1.6 IE, do mesmo ano (1994), e está reformando e equipando para poder realizar novas aventuras pelas estradas da América do Sul. Desta vez ele pretende ir mais longe ainda, para conhecer países como Colômbia e Venezuela.

Aventureiro ele também comprou uma moto Kasinski Mirage de 250 cilindradas. Em menos de um mês já fez duas viagens, percorrendo os 600 quilômetros que separam Goiânia de São José do Rio Preto. “Eu gosto de viajar e de aventuras”, assegura.

Na chegada à Bolívia, Cristian faz questão de registrar aquele momento

Na divisa da Bolívia com o Brasil, próximo de Corumbá

Ao ingressar na Argentina, Cristian para ao lado da placa que indica as distâncias das principais cidades argentinas, paraguaias, uruguaias e chilenas

Ao mostrar essa foto Cristian brinca que com seu Tipo "vai do céu ao inferno"

A caminho do Peru, pouco antes de chegar na divisa com a Bolívia

Cristian com sua família, ao chegar na véspera do Natal de 2016, de surpresa na casa de sua mãe, que para comemorar abriu até uma garrafa de cerveja



Confira abaixo alguns filmes dessas viagens, como a passagem pelo deserto de Atacama, no Chile, a rodovia que beira o oceano Pacifico, no Peru, e a chegada próximo de Lima, a capital peruana





0 comentários:

‹‹ Postagem mais recente Postagem mais antiga ››