04 setembro 2020

 


Só levando na bunda...


Silvio Caruso

 

Não vou me desculpar por ter usado a bunda. As nádegas são usadas apenas em concursos de beleza e nas farmácias. Nos concursos, quando o “agrimensor” anuncia as medidas do lote: X de altura, Y de largura e 98 centímetros de nádegas!

 Nas farmácias, quando o funcionário com cara de safado pergunta pra jovem: vai tomar a injeção no braço ou na nádega?

 Ninguém usa a nádega pra mais nada, além disso. Já ouviu alguém dizendo que fulana tem uma bela nádega? Ou, meti o pé na nádega dela (e)? Então, pra que serve, seja ela nádega ou bunda? Pra quando cair sentado amortecer a queda? É mais confortável pra sentar? Alguém já viu um boi deitado, apoiando o cupim num tronco, pedra ou cupim? Sim, porque seja nádega ou bunda, além de ter certa semelhança com o cupim do boi, parece ter a mesma consistência...

 Ah, então serve pra tomar injeção, que dói menos? Só se doer menos na bunda do farmacêutico, porque na da vítima dói pra diabo, só se doer menos na consciência dele! Eu que o diga. “Levei na bunda” literalmente dez vezes ininterruptas alternando apenas a nádega, um dia numa, o outro dia na outra. Uma delicia.

 A maneira mais confortável de sentar é de pé. Dormir, só de bruços ou no cabide. Se virar na cama dormindo, vai achar que o capeta te meteu o pé na bunda! Mas valeu o sacrifício, levei na bunda pra aprender! Não, não foi pra aprender que só serve pra tomar injeção, aprendi um monte de coisas. Calma que eu explico.

 Nunca tive medo de nada: assombração, bandido, bicho nenhum, raio, chuva temporal, mas morria de medo de injeção! Pronto, passou, até me acostumei. Seja na bunda, na adega, no braço ou na veia...

 Nunca tive nenhum problema de saúde, nunca quebrei um osso, nunca levei um ponto cirúrgico, não tenho dor nenhuma, não uso medicamento nenhum. No final do ano passado fiz dois checapes e “gabaritei” em tudo. Colesterol, triglicérides, glicemia, pressão normal, até de osteoporose passei, nada!

 Do nada, tive um desmaio, o primeiro da vida, e aí começou o aprendizado. Só de pensar no que poderia ter acontecido fiquei apavorado. O que seria se estivesse sozinho em casa? Se estivesse dirigindo? Será que vai repetir? Se tivesse morrido, nem teria ficado sabendo. Aí vem o trauma. Fiquei quase um mês sem dirigir e causar algum acidente. Tinha medo até de andar e cair. Só andava apoiando em paredes, muros ou grades. Sugeriram que tomasse banho sentado em uma cadeira dentro do Box. Me neguei, pois poderia não conseguir mais tomar banho sem ela. Cheguei a pensar que tivesse tido um AVC, mas o médico me tranquilizou.

 Com isso tudo, aprendi que o mais importante de tudo é a saúde e precisamos cuidar bem dela. Depois da aposentadoria fiquei sedentário. Não tendo mais horário nem compromissos a cumprir, passava o dia lendo, escrevendo, ouvindo e aprendendo música ou assistindo televisão. Não sou muito de comer, e isso me fez pensar que pela pouca atividade física, menos alimentos eu necessitava. Caí de fraqueza. Hoje, plenamente recuperado já estou pensando em regime...

 Mas o médico foi cruel comigo, dizendo que “cerveja nunca mais!”. Justo minha companheira de todas as noites há mais de trinta anos? A vida perdeu a cor. Justo agora que comprei cavaquinho, pandeiro e tamborim pra dar início à vida de sambista? Não existe leite em roda de samba, o que será de mim? Escrever o que, sem cerveja e só levando na bunda e ainda por cima, a seco ?

 O escritor que havia em mim, foi embora e levou a inspiração. A vida ficou muito chata e sem graça. Se for pra continuar assim, pode fechar a conta que eu vou embora, mas já aviso que vou “pendurar”! Desobedecendo o farmacêutico, tô tomando só três latinhas por noite...

 Além de todo o aprendizado, comprovei que a gente só dá valor ao que tem, quando perde. E pra não deixar por menos, como grandes descobertas foram feitas por acaso, a minha poderá vir a ser a descoberta do século XXI: Bunda serve pra tomar injeção!

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