sábado, 16 de maio de 2020

Morre jornalista, autor do livro que conta a vida de Bolsonaro no quartel

jornalista Maklouf, que ganhou dois prêmios Jabuti, morre em São Paulo aos 67 anos de idade 


O jornalista Luiz Maklouf Carvalho morreu hoje (16) aos 67 anos em São Paulo. Ele tratava um câncer de pulmão. A informação foi confirmada por sua filha, a também jornalista Luiza Maklouf. Maklouf era repórter do jornal O Estado de S. Paulo desde 2016. Ao longo de sua carreira, teve passagens por diversos veículos, como os jornais Resistência, Movimento, Folha de S.Paulo, Jornal do Brasil, Jornal da Tarde e também pelas revistas Época e Piauí.

Nascido em Belém, Maklouf se formou bacharel em Direito pela UFPA (Universidade Federal do Pará). Desde 1983, morava em São Paulo.

Escreveu livros como "Mulheres que foram à luta armada" e "Já vi esse filme: reportagens e polêmicas sobre Lula e o PT (1885-2005)", obras que renderam a ele por duas vezes o prêmio Jabuti na categoria de livro-reportagem.

Sua obra mais recente foi lançada no ano passado: o livro "O cadete e o capitão: a vida de Jair Bolsonaro no quartel", que investiga o momento em que o atual presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), decidiu trocar a carreira militar pela vida política (veja um vídeo sobre o livro mais abaixo). A filha de Maklouf publicou, nas redes sociais, um texto em homenagem ao pai. Luiza lembrou que o pai foi militante, lutou contra a ditadura militar e começou "do zero" como repórter em São Paulo.

"Nenhum texto, ainda que eu ficasse dias aprimorando, jamais chegaria perto dos textos dele. Um gênio da escrita. O cara era do ramo. Deixa um legado para o nosso país, uma obra importante, 7 livros, centenas de reportagens. Um jornalista repórter investigativo dos poucos. Para mim e para muitos, o melhor", escreveu.

Resenha do livro

O livro escrito por Maklouf sobre a vida do atual presidente da República nos tempos de quartel é leitura obrigatória para quem ousa pronunciar qualquer julgamento sobre o presidente Jair Bolsonaro. É o livro “O Cadete e o Capitão – A vida de Jair Bolsonaro no quartel, de Luiz Maklouf Carvalho (Todavia, 253 páginas). O autor é um jornalista premiadíssimo, que faleceu neste sábado (16) após lutar contra um câncer no pulmão. Já escreveu diversos outros livros-reportagens e ganhou dois Prêmios Jabuti. Para escrever o livro, o jornalista ouviu cerca de 100 pessoas. Todas as entrevistas foram gravadas para que ninguém depois viesse alegar que não falou ou que teve suas falas distorcidas. E o livro está recheado de documentos.


Pra começar a conversa, é bom acabar de vez com a imbecilidade de achar Bolsonaro um bobo, tosco, despreparado ou incapaz. O livro regista inúmeros documentos do “cadete 531” e seu desempenho acadêmico como militar – definitivamente – não foi o de um Bozo.

 Alguns trechos do livro:

– “Nos exames finais do primeiro ano da Aman (Academia Militar das Agulhas Negras), a nota mais alta do cadete 531… foi geometria descritiva, 9,3. Tirou 8,7 em matemática… 7,7 em filosofia; 7,3 em física 1…”

– “O cadete 531 fechou seu segundo ano na Aman com 9,5 nas matérias militares do grupo 1. Tirou 8,8 em estatística; 8,5 em matemática; 7,8 em tipografia…”


Uma das sensações estranhas de ler o livro de Maklouf é que, pela primeira vez em muitos anos, é possível para o leitor atravessar páginas e páginas de algo sobre Bolsonaro sem um único adjetivo. Nem Mito, nem Bozo. Apenas fatos. Objetivos e documentados.

A maior preciosidade do livro  é que tanto quanto Lula, Bolsonaro também foi acusado e julgado. E Maklouf desvenda – com base em documentos do Superior Tribunal Militar – como uma interpretação enviesada desses favoreceu o hoje presidente.

Mas, antes disso, as loas que lhe prestaram alguns superiores quando vergava a farda de oficial do nosso glorioso Exército:

– “A atitude do cadete Bolsonaro enche de orgulho seus superiores de arma, credenciando-o a ser citado como exemplo entre seus pares, elogiou o comandante do 4 BPE.”
– “…demonstrou para com seus homens desvelo invulgar”, atestou em 1984 seu então comandante.

Elogios ao "Cavalão"

O livro traz elogios ao capitão, que para muita gente, Bolsonaro só pode ser sinônimo de limitações. É importante fazer a ressalva, para que a resenha não distorça o notável trabalho do autor, que os elogios da ficha do cadete 531 estão normalmente associados à sua excelente forma física.

O apelido de Bolsonaro era “Cavalão”. Seu desempenho acadêmico ostenta também muitos registros medianos. E há uma avaliação, já bastante ressaltada por outros resenhadores, sobre uma passagem dele durante férias por um garimpo na Bahia, em que seu comandante o define como portador de excessiva ambição e outras considerações desfavoráveis.

Ou seja, o livro não fala que Bolsonaro foi um aluno genial. Longe disso, segundo a vasta documentação pesquisada. Mostra com ênfase nas virtudes do capitão. Nestes tempos em que só é possível enxergar defeitos em quem está de um lado ou de outro, vale lembrar que ninguém – nem Bolsonaro, nem Lula – cabem em reducionismos. Todos têm defeitos. E virtudes. Até o capitão.

O salário está baixo

O grande salto para o abismo e, contraditoriamente, para o Olimpo na vida do então capitão foi um artigo publicado na revista Veja, em 1987, com o título “O salário está baixo”.

No texto, o então capitão da ativa dizia que “torno público este depoimento para que o povo brasileiro saiba a verdade sobre o que está ocorrendo na massa de profissionais preparados para defendê-los”, dizia o capitão da ativa Bolsonaro.  Mas o ponto fundamental do livro está na causa da saída de Bolsonaro do Exército e, por tabela, em sua entrada na política: a chamada e sugestiva operação “beco sem saída”.

Plano para explodir bombas na Vila Militar

Em síntese o livro mostra, em detalhes, a reportagem da revista Veja meses depois, onde saiu publicada uma matéria em que Bolsonaro era acusado de ter contado a uma repórter (junto com outros colegas da caserna) que haveria uma sucessão de explosões de banheiros na vila militar do Rio, sem intenção de provocar vítimas. Apenas para demonstrar a apreensão dos militares com o arrocho salarial.

Em princípio, a conversa era para ser reservada, mas a revista entendeu que por se tratar de um enredo com cores criminosas e terroristas não poderia tomar conhecimento de tal fato e não torná-lo público. Na semana seguinte, abriu a caixa preta dos planos de Bolsonaro e escancarou seu nome e suas intenções. Com isso ele foi julgado e condenado À prisão.

Condenado por 3 a 0

Luiz Maklouf conta como Bolsonaro foi condenado por unanimidade (3 a 0) pelo Exército no chamado Conselho de Justificação e, depois, como foi inocentado por 9 a 4 pelo Superior Tribunal Militar, com base numa distorção jurídica comprovada.

Aos fatos: Bolsonaro havia desenhado alguns croquis e deixado com uma repórter da revista Veja. Assim que o caso veio a público, ele negou. Na semana seguinte, a revista não apenas apontou todos os funcionários – a repórter, o fotógrafo, o motorista, o editor – que conversaram com Bolsonaro sobre o plano, assim como apresentou uma “prova material”: desenhos com palavras escritas de próprio punho, que permitiriam um exame grafotécnico pela Polícia Federal.

Croquis

Logo, as pericias sobre esses croquis passaram a ser cruciais. Antes disso, Maklouf mostra que o estilo vai e volta de Bolsonaro em suas declarações já se prenunciava em sua posição como réu.
Em 12 de dezembro de 1987, em depoimento, o então oficial Bolsonaro respondeu que tinha consciência de que a publicação do artigo sobre as dificuldades salariais dos militares era “uma transgressão disciplinar e que, à época, não levou em consideração que seria uma deslealdade, mas que agora acha que sim”.

Laudo da PF

Bolsonaro faria uma confissão de deslealdade militar por escrito se um dia sequer imaginasse que se tornaria comandante em chefe das Forças Armadas de seu país? Travesso o destino!

Para encerrar, o livro mostra como foi feito um primeiro laudo pela Polícia do Exercito. Esse foi inconclusivo, dizendo que não havia como comprovar que as letras e os desenhos eram ou não da autoria de Bolsonaro (a perícia foi feita com uma cópia e não com os originais, posteriormente entregues pela revista).

Depois, houve um segundo, da Polícia do Exército (agora, com base nos originais). Também inconclusivo. Um terceiro, da Polícia Federal. Taxativo: era de Bolsonaro. E por fim – aí é que está a jabuticaba!!! – Bolsonaro apresenta como quarto laudo o que na verdade é a retificação – repito, a correção – do segundo. Então, pela matemática sustentada pelo então acusado, haveria dois laudos acusando-o e dois laudos livrando-o de culpa.

Na verdade, há 2 laudos inconclusivos que Bolsonaro (à época sem advogado) carimbou o rótulo de “duvidosos” e, portanto, em favor do réu. Mas, o livro de Maklouf comprova, na verdade houve três – três – laudos: um inconclusivo (aquele feito com base na cópia e não no original), outro inicialmente inconclusivo e posteriormente corrigido pela Polícia do Exército atestando a autoria de Bolsonaro e um terceiro, da Polícia Federal, taxativamente afirmando que a autoria era dele e ponto final.

Ou seja, na matemática de Bolsonaro houve um empate de laudos, 2 a 2. Essa foi a tese encampada pelo STM. Pelo que se revela agora, o placar final foi 2 a 0: 2 contra Bolsonaro e um inconcluso, que não comprovou nem desmentiu a autoria, até porque não realizado com base nos originais.

Portanto não valia nada. A rigor, o que o livro revela é que houve 2 pericias. E foram elas que basearam a decisão de punir Bolsonaro.

E revela como esses 2 laudos comprobatórios foram transformados num “empate” de 2 a 2 no STM, inocentando Bolsonaro, exatamente de acordo com a narrativa criada por ele para ensejar um “empate” de laudos que, a rigor, não existiu.

Mas…tudo isso hoje é história. E o fato, como mostra o autor de O Cadete e o Capitão, é que o julgamento de Bolsonaro pelo STM acabou se tranformando – estão aí os autos – muito mais na condenação da imprensa do que na absolvição do acusado.

O grande mérito do livro é um silêncio que não se costuma ouvir em torno da palavra Bolsonaro. Maklouf conta a vida do atual presidente, suas origens, sua infância, sua trajetória militar, seu grande incidente que projetou-o para a vida pública, tudo isso apenas com fatos e documentos, naquilo que o bom jornalismo pode ter de melhor: objetividade, imparcialidade, ausência de viés. Maklouf ouviu cerca de 100 pessoas para relatar a história. E todas as entrevistas foram gravadas para que ninguém posteriormente falasse que não disse o que foi escrito ou que tivesse sido deturpada as palavras.

Lendo o livro sem adjetivos e adrenalinas de Maklouf sobre Bolsonaro e vendo como o jornalismo é praticado hoje, constata-se que o atual presidente mudou muito menos do que a forma de noticiar os fatos. Taí uma péssima notícia.

Livrarias

Lançado pela Editora Todavia, o livro "O Cadete e o Capitão" pode ser encontrado em diversas livrarias online, a partir de R$ 29,90. Entre elas a Amazon, Americanas, Submarino e Saraiva.  

 
Maklouf com o livro "O Cadete e o Capitão"

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