domingo, 21 de outubro de 2018

Após 50 anos moradores da antiga Rubinéia promovem encontro

Portal na entrada principal de Rubinéia, cidade conhecida como "terra do sol"




Moradores da antiga Rubinéia, de quase 7 mil habitante que em 1968 receberam a notícia de que a cidade ficaria submersa sob as águas do rio Paraná, vão se reunir no primeiro final de semana de novembro para um encontro. Será um belo encontro de amigos que não se vêem há tanto tempo, diz Adriz Jacob, um dos organizadores do evento.

A construção da usina hidrelétrica de Ilha Solteira, no final dos anos 60, como uma redenção para o caos que passava o Brasil com a falta de energia elétrica, mudou completamente o cenário às margens do rio Paraná no extremo oeste do Estado de São Paulo. Com o represamento de um dos maiores rios do País, para a criação do grande lago para movimentar as turbinas da hidrelétrica, causou benefícios grandiosos ao país e prejuízos incalculáveis para o meio ambiente e mais ainda para a população da cidade de Rubinéia.

A antiga Rubinéia é hoje uma cidade inteira submersa nas água do rio Paraná. Tudo fica escondido em nada menos do quq 12 bilhões de metros cúbicos de água. A inundação aconteceu em 1973 e, atualmente, a nova Rubinéia possui menos de 3.000 moradores, menos da metade do que tinha a cidade submersa.

Muitos moradores da época preferiram buscar outras paradas para morar bem distante dos rios, como aconteceu com a familia de Lúcia de Oliveira, ex-presidente do Rotary Alvorada de São José do Rio Preto, que aos 13 anos de idade, teve de deixar a cidade, acompanhando os pais que mudaram-se para São Paulo.

“Eu sou prova do estrago humano, nós ainda crianças, sofremos muito”, lembra Lúcia. “Foio um verdadeiro choque de cultura, de costumes e hábitos”.

A nova cidade surgiu graças à teimosia de Alcides Silva e empenho de Rubens Messaro e Osmar Novaes que, como prefeitos, construíram prédios públicos como o cemitério e o matadouro, longe do alcance das águas, diante do perigo eminente. O que para muitos, em 1968, era considerado como “loucura”, hoje se tornou astúcia. Tempos depois, Rubinéia se reorganizava com a construção da nova Biblioteca, Centro de Saúde, Grupo Escolar, Centro Comunitário e sede da Prefeitura.

“Deverá ser uma boa sensação de nos ver e nos perceber como somos hoje”, afirma Lúcia. “Deverá ser emocionante nos descobrirmos simples, como deveríamos ter sido sempre e por fim deverá ser nostálgico nos encontrarmos em inúmeras versões do que somos e não éramos naquele tempo que se foi em Rubinéia”, complementa Jacob.



Homenagem aos poetas

Carlos Drumond de Andrade chegou a escrever um poema para ressaltar o fato da cidade prestar homenagens para diversos poetas e escritores. As ruas da Rubinéia antiga eram batizadas como Machado de Assis, Cecília Meirelles, Guimarães Rosa, Manuel Bandeira, Graciliano Ramos, entre outros e até com o nome de Drumond. “Esquecendo-se que estamos vivo a cidade consagra a poetas e prosadores valores imensuráveis”.

Rubinéia sofreu mudanças imensuráveis e incompreensíveis, especialmente do ponto de vista psicológico dos seus habitantes daquela época. Não era fácil aceitar com resignação a destruição do município, que sumiria do mapa. Era ruim para os habitantes adultos e pior ainda para as crianças e adolescentes que repentinamente viram submergir suas amizades, sonhos e convívio riquíssimo que se desenvolvia na comunidade, estruturada por uma visão social e de convívio pacífico.

Cinquenta anos depois, com a atual facilidade de contato através das mídias sociais, reunem-se as crianças e adolescentes de outrora, hoje cinquentões, sessentões, para celebrarem e confraternizarem-se em um encontro que deverá ser um registro inédito, inusitado e emocionante da “História Submersa”.

Participarão do evento, os hoje envelhecidos adolescentes e crianças da década de 60 e ainda alguns adultos da época, que bravamente sobreviveram à decepção da desconstrução de sua cidade e ainda estão firmes no mesmo propósito de convício com as crianças de outrora que viram submergir sua infância, amizade e amores.

O encontro será realizado na Fazenda Bela Vista, em Santa Fé do Sul. No sábado, dia 3, haverá um jantar dançante e no domingo, dia 4, um almoço. Interessados podem contatar com a Lúcia pelo celular/whatsapp (170 98111-5180.

Estragos enormes

O Brasil tem mais de 200 hidrelétricas. Juntas, elas respondem por cerca de quase 70% de toda a matriz energética do País. Na construção de uma hidrelétrica se forma um grande lago, necessário ao funcionamento das turbinas da usina. A inundação é um dos impactos ambientais da construção. Populações de cidades inteiras são deslocadas porque as áreas ficam submersas nas águas.

Mas o que poucas pessoas param para pensar é que a construção dessas hidrelétricas estrangularam o sistema de navegação de nossos rios. Na época em que os militares governaram o Brasil foram construídas dezenas de hidrelétricas. Porém a única acoplada com eclusa – uma espécie de elevadores para tornar os rios navegáveis – foi a de Barra Bonita.

O engenheiro Adriano Murgel Branco, ex-secretário de Transportes no Governo de Franco Montoro, costuma falar que o sistema de transportes nessa época foi feito para atender interesses de grupos econômicos. A indústria automobilística, os grandes conglomerados de fabricantes de peças automotivas, de pneus e de distribuição de combustíveis nunca tiveram interesse no funcionamento da ferrovia e muito menos ainda da hidrovia.

“Isto porque o que uma composição férrea transporta precisaríamos de 80 caminhões e o que uma chata, que navega pelos nossos rios, precisaria de 250 caminhões”, explica o engenheiro, acrescentando que a economia provocaria um impacto muito grande para o País.

Além disso, as grandes empresas de transporte de carga e de passageiros estão, até hoje, sob o comando de  oligarquias ligadas a grupos políticos. Nos Estados Unidos mais de 40% do escoamento da safra agrícola trafega pelas hidrovias daquele país que possui mais de 250 eclusas espalhadas pelo seu complexo de rios. A China utiliza a navegação como um dos principais meios de transporte desde o século 13 e conta hoje com mais de 300 eclusas. No Brasil, do Oiapoque (AP) ao Chuí (RS), são menos de duas dezenas de eclusas em operação.   






Bandeira do município de Rubinéia


Brasão de armas do município



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