sábado, 17 de março de 2018

Incêndio no prédio... o maior “barato”!



Silvio Caruso Palma
Já morei em São Paulo diversas vezes, em vários prédios e por muitos anos. Até cheguei a pensar em incêndio e me preparei para essa emergência. Em uma delas, já casado, morávamos no 13o andar. Como tínhamos uma decoração rústica, coloquei uma corda acompanhando todo o rodapé da sala, corredores e quantos. Sabia que não seria suficiente para chegar até o chão, mas seria melhor pular do segundo ou terceiro andar, do que lá de cima ou morrer queimado.

Meu pai sempre dizia: em caso de emergência, mantenha a calma, conselho que passei para meus filhos.

Uma imagem gravada em minha mente confirma isso. A matéria de capa do extinto Jornal da Tarde, sobre a tragédia do Incêndio no Edifício Joelma retratava isso. Tinha a foto de um camarada de pé no parapeito da sacada do prédio em chamas, com o paletó dobrado no braço, nó da gravata afrouxado, cigarro entre os dedos e o olhar perdido... Até procurei saber alguma coisa sobre aquele sujeito, mas não consegui.

Bem, vamos ao meu incêndio. Na verdade e por sorte, foi apenas um incendiozinho, que rendeu no máximo alguns boletins ou notas cobertas em telejornais locais. Mas isso só se fica sabendo no fim, no começo não se tem a menor ideia das consequências. Tudo começou por volta de meia noite de um domingo frio de maio. Eu fumava na área de serviço (não fumo dentro de casa) e meu filho estudava no quarto dele. De repente ouço um forte barulho de alguém tentando derrubar uma porta. A primeira ideia é que se tratasse de um desentendimento doméstico.

Nova batida, acompanhada de um grito: o prédio tá pegando fogo! Liguei o nariz e confirmei um cheiro de churrasqueia sendo acesa. Chamei meu filho que confirmou e olhou no corredor. Só a luz de emergência funcionava, mas dava pra ver vultos de pessoas descendo pela escada. Disse a ele: mantenha a calma, pegue só o que for mais importante e vamos embora!

Ele logo voltou com duas mochilas com nossos computadores, alguns livros e um caderno de anotações da tese de mestrado. Como ainda estava vestido e com os documentos no bolso, peguei uma das mochilas, uma lata de cerveja no congelador e saímos. Já no corredor tivemos a primeira boa notícia. O fogo era em um apartamento do quinto andar. Meu avô dizia que água de morro abaixo, fogo de morro acima e mulher quando que, não há que segure. Como fogo não desce, continuei descendo e rindo dos meus pensamentos.  

Quando chegamos ao térreo os bombeiros já estavam entrando e puxando mangueiras do hidrômetro da rua para o prédio. Moradores e curiosos continuavam chegando na calçada. Logo vieram ambulâncias de resgate, mais viaturas dos bombeiros e finalmente e escada Magirus. De uma janela do quinto andar, as labaredas consumiam as persianas que caiam em chamas. Foi aí que soou o meu alarme: o que as pessoas procuram salvar numa hora dessas? Tinha de tudo: gente com malas de viagem (será que estava pronta?), outros com bicicleta, vasos de plantas, cachorros aos montes, gatos, pássaros e até uma tartaruga!

Concordo plenamente que os bichos têm que ser salvos, afinal, eles não estavam lá por que quiseram, foram seus donos que acharam que aquele lugar seria bom para eles!

Nessa altura, o incêndio ainda estava começando e minha cerveja já tinha acabado. Meu filho resolveu participar dessa “missão” e foi até um bar próximo buscar um litrão...

Estávamos numa esquina onde o vento faz a curva. O frio estava bravo, mas ficamos ali até terminar minha coleta de informações e a cerveja. Abandonamos a esquina e fomos para um bar, pois se a liberação do prédio, saísse, poderia demorar horas!

Causa do incêndio: a velhinha do quinto andar ligou um colchão elétrico, saiu, e o colchão pegou fogo.

De quem é a culpa? Da velhinha, ou do colchão?

Juiz nenhum condenaria a velhinha!

Claro que a culpa é do colchão! Aliás, isso é colchão, fogão, ou “cadeira elétrica”? Não tem um termostato para manter numa determinada temperatura? Se ligar e dormir, morre queimado? Enfim, não fiquei sabendo a quem coube a responsabilidade.

Meu incêndio terminou por volta das três horas da manhã, sem mortos nem feridos, com apenas três andares a vencer com iluminação de emergência, escadas alagadas pelos bombeiros e cheiro de queimado que levou uma semana pra sair do prédio.
Mas a ideia principal ficou martelando na minha cabeça: o que as pessoas procuram salvar numa situação de emergência?

Depois de muito pensar, fui pesquisar. Consultei Freud, oráculo, astrólogo, horóscopo e cheguei à conclusão que a salvação mais correta foi a minha!

De que adianta morrer torrado, com uma bicicleta retorcida? Com um computador derretido? Com um cachorro quente? Ou mesmo, com uma sopa de tartaruga? Os documentos se sobrassem, serviriam apenas para facilitar a identificação...

No meu caso, tomaria até a última gota da cerveja e o cigarro estava no bolso...

Até o próximo incêndio, ou pataquada!

*Broncas, reclamações, sugestões e eventual elogio,

0 comentários:

‹‹ Postagem mais recente Postagem mais antiga ››