sábado, 17 de fevereiro de 2018

Rio Preto tem educador entre os 10 melhores do mundo

O educador Diego Mahfouz Faria Lima, diretor da escola municipal Darcy Ribeiro, no bairro Santo Antônio


Daniel Martins
O educador Diego Mahfouz Faria Lima, diretor da escola municipal Darcy Ribeiro, no bairro Santo Antônio, é um dos 10 finalistas do Global Teacher Prize, premiação internacional considerada o Nobel da educação. Ele chega à final do prêmio depois de ser selecionado entre mais de 30 mil educadores, de 173 países.

Os finalistas foram anunciados, na semana passada, por meio de um vídeo gravado por pelo bilionário da tecnologia Bill Gates, um dos fundadores da Microsoft. A cerimônia de premiação será realizada no dia 18 de março, na cidade de Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. A Fundação Varkey, que realiza o Global Teacher Prize, oferece ao vencedor um prêmio de US$ 1 milhão, o equivalente a mais de R$ 3,2 milhões.

Diego é o único representante brasileiro entre os 10 finalistas. Ele também está entre os três concorrentes convidados a fazer uma palestra durante a cerimônia de premiação. O tema: perspectivas para a educação pública no Brasil para o ano de 2030. Foi justamente esse olhar para o futuro que o habilitou a projetar mudanças na escola Darcy Ribeiro, quando ele chegou à unidade, em 2014. Lá, encontrou um cenário, a princípio, desolador, mas encarado imediatamente por Diego como desafiador.

“Era uma escola que tinha toda uma mídia negativa. A comunidade não se sentia pertencente a ela e não se envolvia”, conta Diego. O índice de evasão escolar era alto, chegando a cerca de 200 alunos por ano. Os problemas eram encarados com um olhar punitivo, com alunos recebendo suspensões de três a sete dias. Dentro da unidade, havia registros de tráfico de drogas e alunos portando armas.

Primeiro passo
O primeiro passo para alterar a realidade foi conhece-la por completo. “Me assustei muito com a baixa quantidade de matrículas, de alunos ingressantes no 6º ano. Ficou claro para mim que os pais tinham medo que os filhos estudassem ali. Saí me apresentando para a comunidade e para cada um dos pais que iam à escola. Em seguida, elaborei um questionário, abordando questões sociais e familiares. Com as respostas, eu e equipe nos reunimos e pudemos ver quais eram os sonhos da comunidade para aquela escola e elencar todas as prioridades”, relata o educador.

Projetos
Antes de começar a implantar os projetos, porém, Diego notou a necessidade de transformar fisicamente o ambiente escolar. “Enviei e-mail a todas as escolas solicitando sobras de material de pintura. Algumas tinham só meia lata de tinta para doar. Mas fomos juntando e conseguimos o suficiente para pintar toda a escola”, conta. A ação teve um efeito extra: “Muitos pais nos ajudaram a pintar e os alunos viram os pais ajudando. Teve início a integração entre a escola e a comunidade”, afirma.

Essa integração, diz Diego, foi um dos pilares que sustentaram todas as transformações na escola. “Os alunos reclamavam que a escola era muito feia, degradada. Banheiros danificados, falta de portas e de cortinas nas salas. Tudo foi sendo resolvido com a ajuda da comunidade”, afirma. Até o espaço antes utilizado para tráfico de drogas se transformou em um cantinho de leitura.

Combate à evasão
Outro fator importante foi o combate à evasão escolar. Entre as ideias para manter os alunos na escola, Diego contou com a ajuda da equipe da Secretaria de Educação, que desenvolveu um sistema simples. Cada aluno recebeu uma carteirinha que era registrada nesse sistema a cada chegada à escola. Assim, era fácil ter um mapa dos alunos que faltavam. “Eu ligava para os pais e, muitas vezes, ia até a casa dos alunos entender o que estava acontecendo”, conta o diretor.

Havia casos muito diferentes: desde alunos que matavam aulas e não contavam aos responsáveis até estudantes que deixavam de frequentar a escola por não conseguir enxergar direito. Algumas situações se resolviam com diálogo. Outras, com uma consulta ao oftalmologista e a interação com óticas, que acabavam por conhecer o caso e faziam a doação dos óculos prontos ao aluno.

Voz aos alunos
A principal mudança, porém, foi dar voz aos alunos. Recebido com hostilidade, Diego reagiu falando que queria ouvir os estudantes. Criou quadros em que os alunos poderiam deixar reclamações ou fazer sugestões, fortaleceu o grêmio estudantil. A soma dessas ações com as mudanças já implementadas no ambiente escolar impulsionou transformações mais profundas.

Mudanças surpreendem
“Como supervisora, observei bem as diferenças. Em pouco tempo, eu me surpreendi não apenas com as mudanças físicas no espaço escolar, mas também nos estudantes. Alunos se organizando em fila, entrando para as aulas sem reclamações e mais interessados nas aulas, professores em condições de lecionar. Os projetos trouxeram dinamismo e alegria para a escola”, afirma a supervisora Maristela Mota dos Santos Amaro. “O Diego não apenas se compromete, mas ele se envolve e tentar resolver os problemas”, completa.

O reconhecimento ao trabalho veio não apenas da supervisão. “O primeiro reconhecimento, pelo qual sou muito grato, é o da própria comunidade”, diz Diego. Em 2015, ele recebeu o prêmio “Educador Nota 10”, promovido pela Fundação Victor Civita. Também em 2015, a Academia Brasileira de Educação o concedeu o título de “Educador do Ano”, o maior prêmio nacional de educação.

Sonho
Se vencer o Global Teacher Prize, Diego promete investir em um sonho: a criação de uma organização não-governamental com cursos profissionalizantes para jovens. “No contraturno escolar, é possível fornecer essa formação complementar e dar a eles uma oportunidade. Quando isso é oferecido, nós fechando as portas para os caminhos de drogas, de violência”, diz Diego. Ainda que receba o prêmio, terá como trunfo algo inda maior que o reconhecimento mundial de seu trabalho: a oportunidade de contribuir e expandir suas ideias a outras comunidades.

“Os 10 finalistas do Global Teacher Prize são considerados, pela Fundação Varkey, como embaixadores da educação. Nosso país sofre muito com as questões educacionais. Eu recebo pedido de ajuda de diretores de várias partes do país que estão vivenciando os mesmos problemas que eu quando cheguei à escola Darcy Ribeiro. Eu tenho certeza o apoio dado pela fundação para divulgar e valorizar esse projeto vai me ajudar a implantá-lo em outros lugares, do Brasil e do mundo, bem como auxiliar na formação de professores e gestores para lidar com essas dinâmicas. A educação transformou minha vida. Quero que ela seja transformadora também para outras pessoas”, diz Diego.

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